terça-feira, 4 de outubro de 2011

(…) O que há de especial neste retrato?



(…)
O que há de especial neste retrato?
Aparentemente, não há nada. Não há nada que se apresente para ilustrar o segredo. E, mesmo que o quiséssemos ilustrar o segredo, nada poderíamos fazer porque o segredo nunca se apresenta. Mas há alguma coisa neste retrato: há um olho (que não se move) que olha através da câmara. Sobre o que está a ver esse olho não sabemos nada. Ignoramos em absoluto o “motivo” que está a fotografar. Entre nós que olhamos o retrato e o motivo retratado não há nada. A única coisa que há é a força incrível do aparelho sobre o tripé e o olho (que não vemos) espreitando por detrás das lentes.
O que há no retrato? Não há nada, ou quase nada. E, no entanto, há segredo.


Há as mãos do fotógrafo: rodando a angular, afinando a focagem, focando o motivo, estabilizando o motivo sobre a superfície especular. As coisas estão sempre a fugir: há que persegui-las no instante do seu acontecer. Persegui-las com meios técnicos, como se persegue uma presa. É preciso dominar, domar, o motivo, enquadrá-lo, surpreendê-lo, aprisioná-lo dentro da máquina como se esta fosse uma jaula. O olhar astuto do fotógrafo é o olhar do predador que joga com a sua presa: jogam os dois uma cena de perseguição e fuga. É necessário domesticar a luz, escolher o momento do corte, o momento em que o botão da máquina dispara sobre a luz. O fotógrafo é um caçador da luz que, às vezes, atinge o seu alvo.
Há a inclinação do corpo, ajustando-se à máquina. O corpo do fotógrafo deve contorcer-se para abraçar a máquina. Uma posição, pois, determinada pela máquina. Há o apoio estável da câmara sobre os três pés do suporte, a segurança da sua posição erecta sobre o solo; e há o equilíbrio precário do fotógrafo, talvez apoiado numa só perna, a ponto de descentrar o centro de gravidade do seu corpo e cair. Há um corpo a corpo do homem com a máquina, um cruzamento da técnica com a intuição e a arte (técnica também) da fotografia.
Há o olho da máquina, a objectiva (o objecto na mão dominadora do sujeito), prolongação protésica do olho do fotógrafo. Olho único, monóculo. O olho direito está fechado, suspenso, porque dentro da lente só cabe um olho, um olho único. É uma imposição legal, aí onde impera a legalidade técnica: do aparelho e da perspectiva. (…) Há o punctum do encontro, o contacto (sem contacto) entre o olho e o objecto. Um ponto singular, circular (repare-se no círculo que traça o movimento das mãos sobre o círculo da teleobjectiva) que requisita o nosso olhar.
Há, finalmente, a solidão do fotógrafo. (…)
A única testemunha só revelará o seu testemunho mais tarde quando, no laboratório, pela acção do líquido revelador, a luz até aqui comprimida, negra, um buraco negro, se distende.
O que há aí no retrato? Há o que acabámos de anotar e tudo o mais que não compareceu na anotação, por perda ou desvio. Há tudo aquilo que outro observador poderia ter anotado. E outro. E outro. (…)
O que há no retrato? Não há nada, ou quase nada. E, no entanto, há segredo.

Álvaro Siza. Desenhar a hospitalidade. Nuno Higino

Ps.não sendo “fotógrafo”… não resisti … permanente procura da parte mais secreta das coisas da alma e da alma das coisas.

2 comentários:

Isabel Cunha disse...

"E, no entanto, há segredo."
"... permanente procura da parte mais secreta das coisas da alma e da alma das coisas."

O que há de especial neste retrato?

... a alma?
... a sua alma?
beijo

Isabel Cunha disse...

"E, no entanto, há segredo."

"... permanente procura da parte mais secreta das coisas da alma e da alma das coisas."

"O que há de especial neste retrato?"

... a alma?
... a sua alma??!?
beijo