terça-feira, 24 de agosto de 2010

De que cor será sentir?


«Lisboa, 14 de Março de 1916

Meu querido Sá-Carneiro:

Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.
Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.
As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.
Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.
De que cor será sentir?

Milhares de abraços do seu, sempre muito seu

Fernando Pessoa

P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características...
Você acha-me razão, não é verdade?»

Fernando Pessoa, Carta a Mário de Sá-Carneiro (1915)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

De trigonometria


Para lá dos limites dos significados, muitas vezes, quando olhamos uma fotografia, esquecemo-nos do “olhar silencioso”; dono imortal do Instante.

Uma outra linha de pensamento revela-nos que há outro sentido para a palavra – “o momento decisivo”.

Assim a questão colocada: qual é o valor de uma imagem?

Entre puristas e elites, admito que teria “fomentado” uma discussão interminável.
Para mim há uma contextualização ainda mais subjectiva, o valor é adquirido quando as imagens passam a viver por “elas próprias”, uma espécie de para lá do seu autor - antes existencial, como “parte de uma História”!

Ps. Dou por mim muitas vezes a pensar no desejo de poder captar um momento assim

domingo, 17 de janeiro de 2010

quando o o modo automático “trata de tudo”…!


Ontem, enquanto decorria uma “vernissage”, a minha atenção despertada pelos “disparos” ininterruptos provenientes de telemóveis e máquinas digitais compactas levou-me a “divagar/analisar” o momento….
No século XIX a fotografia democratizou a arte, no século XX popularizou-se como arte. No XXI… o “banalizar do digital compacto” irá ser responsável pelo “embrutecer do registo”?
A “fotografia” ou o “desenho com luz” consiste essencialmente numa combinação de técnica e observação visual.
O modo como a luz pode ser manipulada para criar imagens, os conhecimentos técnicos já não são necessários, o modo automático “trata de tudo”…!