terça-feira, 17 de novembro de 2009

…em que alguém nos diz!



[Sem nunca sabermos ao certo quem nos lê, aqui neste registo privado público, a informação, as mensagens infinitas, conformam a nossa realidade, valores, sentimentos, sentidos, modos de apreciação e de apropriação.
Um dia destes um mail, enviado por uma amiga, alvitrando que os meus tinham muito de enigmático, colocou-me perante um sem número que questões.
Numas mais prementes, noutras mais perenes, vou-me interrogando, entre outras, se este tipo de escritas não lembra um diário de um adolescente…em versão modernista digital e “neonizada”.
Têm sido páginas feitas de luz e ilusão, assumindo as amizades… num registo ausente de tom físico, a não serem muito mais do que comunicação.
Embora não tenha presente os primeiros textos, e com preguiça de consultar o histórico, também esse acto seria inútil pois sei bem que nunca aqui escrevi por solidão.]

Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
Deve guardar segredo sem se sacrificar. Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.

Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
[Vinicius de Moraes]

Estou em mudanças, a mudar de opções, assim…!

2 comentários:

Manuela Viola disse...

Posso não dizer nada, mas gostaria que soubesse que passo sempre por aqui. Bjo.

Arabica disse...

Ainda bem que uma amiga por mail te considerou enigmático e misterioso. Digo ainda bem não por ter tido essa percepção. Mas porque lhe chamaste amiga.
Ainda que nem sequer se conheçam.
Ainda que nem sequer algum dia se tenham cruzado. Mas porque, na contagem dos dias e das noites, do tempo, é bom sabermos-nos ouvidos, lidos e presentes.

Um beijinho, amigo enigmático.