quarta-feira, 21 de novembro de 2007

O mundo é de quem não sente.


A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade.

A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade.

Ora há duas coisas que estorvam a acção - a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade.

Toda a acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alhieo, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.


Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza pára.
O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte - ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.

Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'


8 comentários:

São disse...

Foi bom (re)encontrar Pessoa!
Obrigada por isso.
Boa noite!

vermella disse...

Si ser práctico é ser insensible eu son un "alma en pena",encántame Pessoa,por certo fai pouco estiven en lisboa e comín nun sitio chamado Martinho da Arcada,na plaza do concello,no que vín fotos de Pessoa comendo alí mesmo.
beijo desassosegado!

A Conxurada disse...

Pessoa sempre tan atinado.
Eu, por sorte, estou condenada ao fracaso.

Beijos

Ana disse...

Gosto destas verdades de Pessoa. :)Boa noite..

RV disse...

Um Bem haja à Harmonia.

Este texto de Pessoa pode dar asas a uma dedução errónea daquilo que ele quer transmitir. Pessoa, muito letrado em temas que vão muito para além do senso comum, deixa neste texto uma mensagem muito mais complexa do que parece.
As antigas Tradições diziam que o verdadeiro controlo sobre si mesmo acontece quando cada um governa o seu centro. Este Centro atinge-se quando alguém é a mesmo pessoa independente da situação. É um governo que é feito de dentro para fora. A sensibilidade é o efeito que o exterior que por intermédio dos nossos sentidos provoca no nosso interior e por esses sentidos ou sentimentos não deve o Homem se deixar iludir e guiar. Através da sua vontade deve o Homem agir de acordo com os seus “sentimentos” interiores ou chamando-os por outro nome, valores ou virtudes. Estes “sentimentos” são os seus verdadeiros conselheiros, e toda a acção plasmada dos mesmos será sempre a correcta longe de acarretar a insensibilidade perante outros do sujeito que a pratica.

Um Momento disse...

Bom reler... e sentir...
Beijo...e desejo um bom fim de semana cheio de coisas boas
(*)

deep disse...

Este pensamento, que pretende ser uma análise da acção humana, embora remonte aos primeiros anos do século XX, cada vez se coaduna mais com a forma de estar e de pensar de alguns homens de hoje, para quem a sensibilidade é própria dos fracos, dos medíocres, dos que não têm ambições.

Gosto deste F. Pessoa - Bernardo Soares: incisivo na análise da alma e dos actos humanos.

Bom fim-de-semana. Beijinhos

Gi disse...

É o meu livro de cabeceira faz tempo. Nunca me passou sequer pela cabeça lê-lo de seguida. Gosto de o abrir ao acaso, ir lendo, pensando . Alguns textos repito a leitura, não sei sequer se já o li todo, penso que sim :) S

Sabes que por vezes me apetece contrariá-lo mas depois acabo por lhe dar razão.Pelo que conheço dele quer parecer-me que este "quem não sente" vai muito para além dos sentidos, para além do "eu". Vai até à altura em que o homem sai de si, se despoja de tudo aquilo que é dado como facto adquirido , como verdade. Até á altura em que se consegue ver como "ser" como parte integrante do Universo. Nessa altura ele é o Mundo e o Mundo é ele . Pertence-lhe.

Posso estar errada mas é a forma como eu sinto.

Tenho que vir cá ler-te com a mente mais tranquila. ;)

Um beijinho