quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Lentamente…

A palavra é um som interior.

Este som corresponde parcialmente (e talvez principalmente), ao objecto que serve para designar.


Quando não se vê o objecto, mas apenas o seu nome, forma-se no cérebro do auditor uma representação abstracta, o objecto desmaterializado, que imediatamente desperta uma “vibração” no coração.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

E...


(…)

Era uma vez um homem que pretendia calcular tudo.

Prazeres, dores, virtudes, vícios, verdades, erros: para cada aspecto do sentir e do agir humanos este homem estava convencido de que podia estabelecer uma fórmula algébrica e um sistema de quantificação numérica. Combatia a desordem da existência e a indeterminação do pensamento com a arma da «exactidão geométrica», ou seja, de um estilo intelectual todo contraposições claras e consequências lógicas irrefutáveis.

O desejo do prazer e o temor da força eram para ele as únicas certezas das quais se pode partir para penetrar no conhecimento do mundo humano: só por esta via podia chegar a estabelecer que até valores como a justiça e a abnegação tinham qualquer fundamento. (…)


Porquê ler os clássicos? Italo Calvino.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A vida por um olhar



¨tu não deves…¨tu não deves o quê? ¨TU NÃO DEVES SONHAR TANTO! ¨porquê? ¨só traz desassossego ¨e então? ¨Então ficas a sofrer por isso…

A necessidade poética de SONHAR



Vinde à terra do vinho, deuses novos!
Vinde, porque é de mosto
O sorriso dos deuses e dos povos
Quando a verdade lhes deslumbra o rosto.

Houve Olimpos onde houve mar e montes.
Onde a flor da madrugada deu perfume.
Onde a concha da mão tirou das fontes
Uma frescura que sabia a lume.

Vinde, amados senhores da juventude!
Tendes aqui o louro da virtude,
A oliveira da paz e o lírio agreste...

E carvalhos, e velhos castanheiros,
A cuja sombra um dormitar celeste
Pode tornar os sonhos verdadeiros.

Mensagem,
Miguel Torga


Acredito no sentido instintivo!

O tempo que vivo, onde há “personagens” difusas - seres humanos que a enriquecem, produz no meu “tempo interior” as fraquezas de uma inquietação.

Será a mão que dita esta caligrafia inquietante, uma mão tímida?

Tempos e patrimónios novos




“Alminhas” das estradas e caminhos – um ponto de vista

“Ó vós que ides passando,
lembrai-vos de nós,
que estamos penando”

Os nichos das alminhas, dispersos por caminhos, constituem uma curiosa apresentação da nossa etnografia.
Documentos ingénuos de arte popular, registos de vida e costumes também da sociedade trasmontana - com um valor histórico e ao mesmo tempo cultural, estes valem sobretudo, para além da nota religiosa, pelo cunho artístico - popular que apresentam, com os seus erros de desenho, “ingenuidades iconográficas” e policromia viva das tintas.
Com o decorrer dos anos as “substituições” assumem a forma de nichos de pedra ou painéis de azulejos.


Deste modo, pelos materiais utilizados, podem-se distinguir “intervenções” de diversas épocas.
Notas típicas da paisagem e da arte portuguesa, elas merecem bem o interesse do nosso olhar.

Todavia, e temos de afirmá-lo, como está algum do nosso património…?

É comum dizer-se que uma imagem vale por mil palavras…contudo, talvez nem com mil imagens seja possível desenvolver o que dizem estas oito palavras:
- Abandono!

Eu não estou minimamente dentro do assunto, por isso desconheço em absoluto o fundamento (ou ausência dele) mas posso dizer uma coisa que para mim parece o mais gritante dos óbvios:
- A resposta ao objectivamente visível, encontra-se perdida, algures… no limbo do anonimato das cidades modernas onde tudo se torna transitório.

Assim sendo, fica sempre a esperança!

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

O mundo é de quem não sente.


A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade.

A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade.

Ora há duas coisas que estorvam a acção - a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade.

Toda a acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alhieo, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.


Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza pára.
O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte - ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.

Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'


Diversos entre diversos ou a música do silêncio?


A tranquilidade e o sossego, meus inseparáveis companheiros, ajudam-me a estabelecer monólogos de alma.
O que sucede então é muitas coisas ao mesmo tempo. Impõe-se um silêncio.
O ar frio da manhã, o azul do céu, matizes ocres da vegetação…infinidades de sugestões cromáticas…
…essa luz, esse raios brancos que observam… imagens também feitas de linhas que obedecem à luz e a ritmos.

Recolho o olhar.
Sejamos exactos.
Onde é que o espírito é mais puro? No principio.

É a questão do tempo. As coisas vão mudando

Vindo de um fundo quase indistinto, a silhueta do olhar de uma pastora de negro vestida. No mirar melancólico, vi no instante, um povo feito de pedra com coração.


Ps. Cansado da cidade, do ritmo da “vida social” definido pelo “tempo de trabalho”, domingo resolvi fazer “gazeta” aos trabalhos académicos e aceitar um convite para um passeio micológico – um merecido descanso em “cenário natural”.
“Recolha” de cogumelos? A escassez de pluviosidade também aqui fez das suas...!

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Não tiro os olhos das tuas mãos…quem são elas?


...deparei recentemente com um post que me soube a uma piscadela de olho!

Por trás dos olhos fechados a paisagem não se faz.
Há uma vontade de êxtase.

Vi-me como os outros me vêm?


O sentido é por vezes difícil de atingir!
Toda a minha vida tem sido querer adaptar-me.
Vendo-me de fora, porque eu não sou só um sonhador, compreendi que era impossível.

O problema não deve estar no guião
Eu é que não sei representar.

…a Divina Inveja?

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Confissão


E fui andando sem pensar em mudar
E sem ligar pro que me aconteceu
Um belo dia vou lhe telefonar
Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu
No ar que eu respiro
Eu sinto prazer
De ser quem eu sou
De estar onde estou

Agora só falta você
Agora só falta você

Maria Rita

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

O chão e o verbo


Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso.

Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo.

O que é preciso, para se os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite.

Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe, como é dos mais belos que se possam imaginar.

Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crosta do sonho, contempla a própria bem-aventurança.
Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum deus criador e dominador. Tudo parado e mudo.
Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:
- Para cã do Marão, mandam os que cá estão!
Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro.
Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?
Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nome invisível ordena:
- Entre!
A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.


Miguel Torga. Portugal (Coimbra, 1950)

Ps. Confesso, embora seja suspeito, provavelmente dos melhores textos escritos sobre Trás-os- Montes!

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Aqui e Além


O proprietário ausente é a maior “maldição” da paisagem rural. O antigo proprietário, o homem que a criou, foi extinto à força de “factores externos” em que várias linhas de força operaram simultaneamente, e os novos proprietários habitam na cidade ou nos seus arredores.
Aceitamo-la como um dado!
Consequentemente, o sentido da própria responsabilidade, que nasce do conhecimento e do amor a uma determinada parcela rústica, não está presente.
E a ideia perdeu-se. Muito frequentemente perdida para sempre…!

Felizmente o espaço rural não foi inteiramente abandonado. Ainda sobrevivem aquelas aldeias que estudam humildemente o seu de campo e que se demarcam do panorama geral da decadência, desarrumação e descuido.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Um bom acto de justiça.


Sentença anunciada contra o padre Fernando da Costa, Prior de Trancoso, datado do ano de 1478, a qual consta do processo arquivado na Torre do Tombo, Armári 5º. Maço 7º.


“Padre Fernando da Costa, Prior que foi de Trancoso, da idade de 62 anos será degredado das suas Ordens e arrastado pelas ruas públicas ao rabo de cavalos, esquartejado o seu corpo é posto aos quartos, cabeça e mão em diferentes Distritos. Pelo crime que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com 28 afilhadas tendo delas 117 filhas e 27 filhos, de 5 irmãs teve 30 filhas e 6 filhos, de 7 amas teve 39 filhas e6 filhos, de 2 criadas teve 38 filhas e 7 filhos, dormiu com uma tia chamada Ana da Cunha que teve 3 filhas e da própria mãe 2 filhos – total 275 filhas e 75 filhos todos concebidos de 54 mulheres. El Rei D. João II perdoou ao fecundo sotaina e mandou pôr em liberdade aos 17 dias do mês de Março de 1487 e guardou no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença devassa e papeis do processo.”

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Introdução


Quanta arte não é precisa para penetrar na Natureza.
Quanto tempo e quantas regras não despendemos para
dançar com a mesma liberdade e graça com que andamos,
e para cantar como falamos,
e falar e expressarmo-nos como pensamos.

Montaigne

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Exílio


São vários os modos de exílio:

a) o exílio amoroso
b) o exílio para o espaço interior
c) o exílio para um espaço de pura exterioridade
d) o exílio como agenciamento de um olhar de fora para dentro.
nota: ultimamente "estou" em todas as alíneas....!