sábado, 6 de outubro de 2007

A escrita do visível


A escrita do visível ou a conotação, isto é, a imposição de um segundo sentido à mensagem fotográfica.

A palavra ou a língua, escrita ou falada, parece não ter nenhuma importância no mecanismo do meu raciocínio. Não há nada mais evidente do que a seguinte passagem de Albert Einstein que li em algures: Os elementos psíquicos básicos do pensamento são sinais determinados a figuras mais ou menos claras, que podem ser reproduzidos ou combinados “à vontade”.

Qual é pois o conteúdo da mensagem fotográfica? O sentido óbvio, a representação de uma forma está mais ligada à pura imaginação do que à observação.
Ao nível da mensagem simbólica, o poder projectivo da imagem, aponta para um significado possível.
Tantas vezes “rabiscado” em “estados” de paixão, ilustrado por graffitis, gravado em bancos de jardins e troncos de árvores, procurando perpetuar sentimentos lá vai proliferando como expressão máxima de paixão.

Admito que este signo romântico produz um mal-estar de execução.
Mas ilustrar um sentimento tão intenso como seja o amor, com a colocação do mecanismo neural, núcleos subcorticais e o córtex cerebral ou os sinais neurais das vísceras, dos músculos e articulações e dos núcleos neuro-transmissores devidamente identificado tiraria metade do êxtase do momento, do sentimento.

Claro que haveria sempre uma certa forma de dar a volta ao texto, socorrendo da estilização - convenhamos que a comparação entre a verdadeira aparência do órgão e a forma do coração, também aqui não existe nenhuma relação…

Eis-no imediatamente no cerne do problema. Como é que o sentido vem à imagem?

Assim, a consciência de que não existem elementos casuais ao nosso redor ou dentro de nós, mas de que toda a matéria (inclusive a mental) obedece a uma composição ordenada, leva a pensar que até o traço ou o rabisco mais inocente não pode existir acidentalmente, por puro acaso, mesmo que o observador não reconheça claramente as causas. A origem e o motivo desse “desenho”.

Este desenvolvimento complica-se…!

Retomemos uma vez mais o processo do sentido.
Embalando o escrever destes apontamentos de campo, mesmo correndo o risco de ser apontado como um voyer naturalista…. a voz sensual de Ingrid Bergman (no cd do filme Casablanca (original motion Picture soundtrack)).

A comunicação que é implicada por esta segunda escuta é religiosa:

Play it Sam..Play “as Time Goes By

You must remember this

A kiss is just a kiss

10 comentários:

ivone disse...

da escrita visível importa relembrar a leitura possível. mas é nas entrelinhas que se encontra por vezes a mensagem provável. assim acontece com a fotografia. das inúmeras leituras visíveis e possíveis ela transporta-nos para um outro mundo de sentires. e aí reside a sua magia!
como em qualquer forma de expressão sendo ela a mais linear e simples tudo é intencional. limita-se a dar-nos pistas para cada um de nós seguir o caminho que melhor entender ou querer na procura eterna duma fonte de prazer. daí a necessidade constante do acto de criar.

"a sigh is just a sigh
the fundamental things apply
as time goes by"

fique bem
bj

Paulo Sempre disse...

Não quiz ficar "invisível" nesta visita.
Termos em que, antes de mais, quero felicita-lo pelo excelente blogue.
Abraço
Paulo

vermella disse...

Parece que os nosos pensamentos camiñan moi parellos,veciño.!!!!!
bicos.

AQUENATÓN disse...

FIQUEI ATÓNITO... !!!

Tu...aqui ?

Eu tbm gostei daquilo que vi no teu blog.

Mas não me surpreendeste, dadas as tuas qualidades de bom observador, fotógrafo de recursos técnicos infinitos ... e de alma grande a palpitar dentro de ti ...

Obrigado, pela visita e pela tua amizade

Alexandra disse...

Embora os insectos não estejam dentro das minhas preferências no que concerne à beleza tenho que concordar que esta fotografia está fantástica. Do texto, só posso dizer a mesma coisa!

Acrescentaria que estou de acordo quando diz: "Ao nível da mensagem simbólica, o poder projectivo da imagem, aponta para um significado possível."

Até mesmo quem tira a fotografia, quem capta a imagem, quem repara naquele pequeno fragmento de uma realidade tão extensa, está a projectar-se. Não existe imagem nenhuma que seja captada por cada um dos nossos olhares que não tenha um signíficado simbólico. Até mesmo a forma de uma nuvem pode ser vista de formas diferentes por pessoas diferentes. Qual a causa? Imagens mentais diferentes, vivências diferentes...

Isto, para ir de encontro ao último parágrafo e não me alongar mais...

EXCELENTE POST!!!

Beijinhos

Gi disse...

Não se acrescenta nada ao que já por si é perfeito. falo naturalmente do eu texto. Sobre a imagem deixo aqui um excerto que és capaz de conhecer

«[...] tentar recriar em mim o olhar inocente da criança que fui, procurar ver as coisas como se as comtemplasse pela primeira vez, reencontrar a frescura que quase todos perdemos de olhar sem preconceitos racionais, tratar a distância como um dado e aceitar que as coisas longínquas não parecem pequenas mas que o são de facto, redescobrir a exaltante charada das aparências, perseguir alegremente o paradoxo do visível para atingir o que todas as crianças conhecem: a magia das coisas e o mistério de tudo.»

Gérard Castello-Lopes, Reflexões sobre fotografia"

Espero que te diga alguma coisa.

Um beijnho

Tchivinguiro: onde nasci. disse...

O poder da imagem dá força à mensagem, independentemente de todas as leituras que a partir dela nasçam.

gata disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
gata disse...

Meus Deus!!! preferia tanto acreditar que, metade do que escreve se deve ao puro acaso.....

Beijo de gata, bom fim-de-semana.
Esta casa merece mais tempo de visita, que fica prometida.

Bichodeconta disse...

A imagem fala por si, parabéns pela foto e pelo magnifico texto.um abraço, ell