terça-feira, 25 de setembro de 2007

Sem título


Quando contemplamos qualquer coisa sob o ponto de vista estético desejamos que as forças opostas da realidade cheguem a um qualquer equilíbrio, que se faça um armistício entre o alto e o baixo. Contra este desejo de uma forma permanente, porém, rebela-se o processo moral da alma, com o seu incessante subir e baixar, com o constante prolongar dos seus limites, com a inesgotabilidade das forças contrárias que se movem no seu seio.
Jorge Simmel, Cultura femenina y outros ensayos


Da minha janela, a rede de artérias, vista do alto é uma malha intrincada de avenidas, ruas, ruelas, travessas, calejos, praças e jardins. Deve ser igual a muitas outras.

Mas os encantamentos são, muito breves, porque as pessoas tiram-lhes o encanto com ideias.


Os nomes das ruas da minha cidade são tristes:
Rua da Tristeza
Beco da Amargura
Avenida do Descontentamento
Caleja da Angústia
Escadinhas do Desgosto
Jardim da Melancolia
Travessa da Desolação

Também não consigo parar o pensamento. Por isso escrevo. Sobre o ver e o não ver, penso sempre.
Pensei guardá-los para sempre mas não consigo. Mas é por mim que escrevo.

À imagem de um mundo (o meu mundo), feito de informação, une-se a necessidade de convergir para um sentido, é manter-me no mundo sem perder a noção do meu ritmo orgânico essencial: é uma condição de sobrevivência.
A compreensão de um futuro próximo

Mas escrevo para lembrar a queda de um encantamento. Já não há uma estrela cadente com um nome, só há a estrela que tenho de seguir.

Começo a imaginar coisas e a criar estratégias de procedimento – tenho esboçado em desenhos tão finos, invólucros ilusórios: o nada!
Só!

À noite as ruas são negras: sob o candeeiro diviso o vulto que persigo.

12 comentários:

Jardineira aprendiz disse...

Sugiro uma grande manifestação:
Abaixo a tristeza, a amargura o descontentamento, a angústia, a melancolia, a desolação, o pessimismo! Façam-se cartazes com traços grosseiros de caras sorridentes. Gritem-se palavras de ordem em forma de gargalhadas. Se houver desiquilíbrio que seja para o lado da alegria (nem que seja tola)!

Peço desculpa pela diarreia de palavras! É que às vezes preciso, no outono a tristeza brota como os cogumelos.

alexandrecastro disse...

Depois de publicado, também eu resolvi ler o que escrevi - um posto escrito com tristeza.
Acumulando expectactivas e frustrações, um dia há em que tudo sai cá para fora...!
Olhando uma reprodução do Grito do Edvard Munch, não me restam muitas dúvidas de que sou eu o retratado…!

Hoje, ao fim do dia, tacticamente, resolvi tirar uns dias de férias.
Tal como um bom eremita irei refugiar-me nestes meus montes.
A tristeza, essa, não me acompanhará. Parto com um pensamento de Picasso a “saltitar” na cabeça:

Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela, mas há também aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol.

Alexandra disse...

Olá Alexandre,

Percebo o que quer transmitir com a transcrição das palavras de Jorge Simmel. As dicotomias acompanham-nos sempre... o ser/não ser, verdadeiro/falso, etc. Por muito que queiramos não temos hipótese de abstracção. E não o temos porque somos seres pensantes, com tudo o que isso implica.

Assim, não consegue nem deve tentar parar o pensamento. Ele flui mesmo que o tentemos parar.

Se existe tristeza no pensamento, provávelmente existirá também razão para tal. A única coisa que podemos fazer é tentar perceber o porquê da tristeza e também a forma como se pode modificar a situação.

Existem sempre estratégias que estão de sobremaneira ligadas`há nossa pp condição de sobrevivência.

Muito mais poderia dizer mas, fico por aqui...

Beijo, Alexandre.

PS: Nem sempre o recolhimento (solitário) é a melhor maneira de resolver as situações.

Alexandra disse...

ligadas à nossa pp condição (errata)

Desculpe, a pressa faz das suas :)

alexandrecastro disse...

Olá Alexandra
Para além do homónimo, outras “semelhanças” aparentamos ter.
Gostei muito de ler as suas palavras, é sempre reconfortante saber que “algures” há alguém que nos “entende” e procura apoiar.
Também o seu PS. está repleto de razão. Só que, aqui, é de mais complicada resolução – eu sou um homem só!
beijinho

FINA FLOR disse...

que bonito!!!

tenho adorado as leituras de blogs portugueses, sabia?

Eugênio de Andrade, Pessoa, espalharam boas sementes por aí..............

gostei do seu sentir, também, querido!

beijos e boa semana,

MM.

ps: obrigada por sua visita, volte sempre que quiser....

JRL disse...

A fotografia é excelente Alexandre. Um beijo e coragem

ivone disse...

"Mas é por mim que escrevo."

alexandre quando deixar de escrever por si não vale a pena escrever mais.

também eu hoje estou imensamente triste. também eu hoje sou uma mulher só. também hoje me tiraram o encantamento."também não consigo parar o pensamento". também eu hoje "escrevo para lembrar a queda de um encantamento". também o grito de munch se retrata hoje em mim.

e também é por mim que eu hoje escrevo!

De Amor e de Terra disse...

Olá Alexandre, bom dia.
Que Outono aí vai, meu Amigo!!!
Mas ele não precisa ser triste!
Apesar da nostalgia", o Outono é (e sempre foi)para mim "A Estação, com todos os seus cambiantes de cor...e acho-o tão belo, que me enche a alma da luz suave que dele emana e me oferece sonhos, como ele nostálgicos, mas duma beleza incomparável... assim também a minha idade; assim também o Outono em Vivaldi; assim também muita da minha poesia...
assim também o olhar sobre os campos ceifados na espera do inverno...tudo tão belo!!!
a solidão, essa, "a gente vai-se habituando"!

Bj

Maria Mamede

Gi disse...

E eu que só vejo beleza no Outono e me sinto tão grata de ele finalmente ter chegado. Dou cada vez mais atenção aos pequenos nadas da vida que passaram ao meu lado durante tanto tempo sem que desse conta deles. Aos poucos vou afastando os pensamentos negativos e aos poucos também se vai formando uma palavra dentro de mim. Esperança! Basta que todos queiramos e façamos alguma coisa por mudar o estado das coisas.


Um beijinho. Não sei se cheguei a agradecer a visita que fez ao meu espaço. Ando sem tempo e um pouco perdida ... bom, mais vale ser em duplicado que não o fazer de todo :)

resto de um bom dia

Rhiannon disse...

Sabes quem sou? Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.

Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr.

Fernando Pessoa

....

Lis disse...

Dias...que duram pouco, felizmente, não?