sexta-feira, 25 de maio de 2007

Palavras de Cá e de Lá


A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristecia também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da evocação, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.
Vinícius de Morais


E dessa solidão, agora, já não sofro.
ps. obg M.V.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Fartei-me


Como ultimamente mais não tenho feito do que andar a desfiar “rosários de lamentações” ...
(não me contento. Às vezes parece que ponho mais coisas em causa que os outros, que aceito menos, que não me conformo….) entendi que devia por um ponto final a esta minha postura de “desgraçado”.

Vou ocupar os pensamentos com “outros assuntos”. Está decidido vou entrar em mestrado!


Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
e os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos
e com as mãos e os pés
e com o nariz e a boca.

Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la
e comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
me sinto triste de gozá-lo tanto,
e me deito ao comprido na erva,
e fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
sei da verdade e sou feliz.
Alberto Caeiro

e apenas por isto é que a vida vale a pena...
ps. obrigado M.V. as suas palavras "despertaram-me" para a realidade...!

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Passado. Presente. Futuro.


Cada vez mais propenso ao silêncio
É escusado. Espero, espero, mas o quê?
Do fundo do abismo onde caí, não sei o que hei-de fazer à vida.
Trabalho excessivamente, sofro excessivamente, ciente que não são as ilusões que me determinam os passos que dou para viver. É o amor-próprio.

Confidências e mais confidências.

Está visto vou acabar assim desesperado. O defeito deve ser meu.

E era tão fácil ter paz!

Sentir, Imaginar, etc….


Borboleta esquiva, a poesia vai e vem, pousa, levanta, afasta-se de novo, e não se deixa agarrar. Mas insisto, aproximo-me em bicos de pés, estendo a mão e vislumbro o triunfo. Pura ilusão. É farelo que me fica entre os dedos – a cinza da imagem alada que a minha sofreguidão esmagou.


Miguel Torga (Diários)

Como a compreendo...


As coisas boas esquecem. As más é que não. É que só elas deixam cicatrizes.

M.V., já agora, ter coragem é vencer o medo, não o sentir é inconsciência…

terça-feira, 22 de maio de 2007

Zero e infinito


Duas fraquezas que se apoiam entre si criam uma força. Assim se mantém firme cada metade do mundo, que se apoia na outra metade.

Entre a sombra e o sonho!


Passo a minha mão pela tua cabeça,
recurvamente, atentamente, e só com dedos brandos,
olhando-a como passa e vendo onde passou.

Quero tanto saber o que pensas.

Jorge de Sena

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Para aquela que…




...entrou disfarçadamente pela minha vida, pela minha alma e pelo meu corpo...... e acabou enraizada na minha memória.

Nada me faz tão feliz como sair para o campo e pintar aquilo que vejo.
Rousseau


ps. à MV




quinta-feira, 17 de maio de 2007

A valsa […une valse à mille temps.]


Nostalgia, s.f. sentimento de tristeza motivado por profunda saudade, especialmente próprio de quem se sente estranho, longe da pátria ou do seu lar.

Marcado e repetido
ou imperceptível
e como que perene,
o suceder das coisas,
cujo ser é noutras ser
a forma contornada
e previsível.

Jorge de Sena

Pedra de toque


A uma razão - o impulso foi-me dado por um comentário – o outro olhar.

Há demasiados pensamentos no meu cérebro.
Pensei guardá-los para sempre mas não consigo.
Também não consigo parar o pensamento.
Por isso escrevo.

Nós que fazemos de experimentar uma profissão,
herdamos uma velha tradição: alguns de nós foram os maiores artistas,
mas nunca fizemos das musas nossas amantes. (…)
Eu não fico, pois, extasiado diante da arte
fico em êxtase diante da função humana o que subentende tudo o que fazemos com as nossas mãos,
Os nossos sentidos, etc.
O nosso trabalho, uma vez terminando,
não tem para mim tanta importância como para a maioria dos estetas:
É o acto que me interessa, não o resultado,
e apenas sou apanhado pelo resultado quando ele emana o odor do suor humano,
ou um pensamento.

Orson Wells

Desenho de uma maneira sistemática e quase obsessiva no meu quotidiano.
O que procuro é dar forma, ao tempo, ao vazio.

Uma só coisa interessa, nesta
constante identidade de tudo.
E essa coisa é o Acto: o Acto que
apenas se interessa pela sua
própria realização.


Abel Salazar

Por essas e por outras, sim, gosto de desenhar, gosto da minha caixa de lápis, da minha caixa de aguarelas, de me evadir e só, contemplar, para depois mergulhar da experiência das coisas.


A busca de universos pessoais.


Tudo isto constitui apenas o segundo passo que o sonhador deve dar ao seu sonho

Há vários caminhos para esta atitude. Gravar, riscar, esculpir, mas em última análise, escrever – por ser a única maneira de eternizar a expressão.

Tú eres lo único que tengo
desde que perdi mi tristeza!


Pablo Neruda

No ar, elevando-se, as espirais de fumo do cigarro, numa leve embriaguez, unem-se na voz da emma shapplin. Música ou sonho?


A Verdade? Descontentamento da alma!

Posfácio. Para Manuela Viola.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Sentir é buscar


Uma pedra atirada para dentro de água torna-se no centro e na causa de muitos círculos.
Há muitas dinâmicas que podem produzir resultados deste tipo.
O todo repete-se em todo o lado, e o todo está em todas as pequenas partes.


Faço, formulo, gestos na sombra.
Quem sabe se sonhando-te eu não te crio, real noutra realidade.

Um texto é feito de muitos textos?

Ao longe, ao fundo, o sol já começa a cair.
Montesinho saúda com um sorriso tranquilo.
Sítios assim não são para se contar, horizontes onde vivemos e nos movemos (o tempo longo…) só podem ser desfrutados.

p.s. – procuro companheira que me queira acompanhar sábado até Montesinho.

… e, se não, também não importa.
Assim sendo, a alma voa, ainda, algures…

terça-feira, 15 de maio de 2007

Sequência, argumentos e actuantes


Dizia hoje alguém:
- Em Portugal, as pessoas são imbecis ou por vocação, ou por opção, ou por devoção.


Miguel Torga (Diários)

Parece que sim. O que é o poder das ideias…
Como qualquer disco girando, surge o eterno problema de se saber o que fazer enquanto se está na “fila de espera”.


Debato-me entre forças contraditórias. Em vez de os esquecer, trago-os no pensamento.
Consumido de todas as maneiras. Sobretudo de indignação.


O cansaço mental desgasta o pensamento, aprisiona-o às tarefas para cumprir.
Apesar do “devido” ao muito trabalho, olho o futuro, mas não o alcanço…
… quando os sonhos se confrontam com a realidade, surge o “desespero”!!!!
Céptico? O Rei vai nu.
Por mais que me esforce não consigo entrar na “roda dos eleitos”.

Trabalhar! Êxtase! Esmagar os cérebros!
Indignado. Que estupidez!
Não posso fazer da vida um inferno.


Hoje comprei uma nova caixa de aguarelas! Sábado vou até ao Paraíso – Montesinho…, mergulhar nas “telas” com alegria!

Começando a jornada no café do Isaías, depois só me resta perder no silêncio destas montanhas, retemperar a alma – o palpitar do belo!
Ali, talvez, quem sabe, me vá esquecer dos esboços.
Escondido, recolhido, a natureza devolve-me o tempo:

- É fácil sonhar, é fácil, de repente imaginarmos-mos.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

A vida, se bem passada, é longa.




Este registo levou-me (como sempre…) a monólogos interiores:

Duas fraquezas que se apoiam entre si criam uma força. Assim se mantém firme cada metade do mundo, que se apoia na outra metade.

Entre eu e os outros, reparto-me entre o homem do mundo e o homem da margem. E como só por histórias, se cruzam outras histórias:

A traça que rodopiava ociosamente, não contente com a sua capacidade de voar para onde lhe agradasse, sentiu-se fascinada pela sedutora chama da vela e resolveu voar na sua direcção…!

Destas e doutras, tenho chegado sempre à mesma conclusão:
- um belo dia de sol, e eu sem paisagem dentro de mim para o receber.

Há sempre um vazio, imenso e estranho…

Não é por as coisas serem difíceis que não ousamos, mas é porque não ousamos que elas são difíceis.

Os dias passam-se à margem do que realmente é a vida!

De relance os olhos prendem-se na lombada de um livro:

Mulher procura mulher impotente

Quem sabe se a “solução”, não passará, tal como na história do livro, por colocar (com as respectivas alterações à adjectivação..) um anúncio de jornal….!
Aceitam-se sugestões!

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Do ser e do dizer!


- Vem para cá inspirar-se?

- Não. Venho receber ordens.

- De quem?

- Dos meus antepassados.


(Do Diário de Miguel Torga)