segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Íntima significação


Mal fora iniciada a secreta viagem
um Deus me segredou que não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que Deus me
segredou

David Mourão-Ferreira in A Secreta Viagem

Posfácio. Mais importante do que haver milagres é acreditarmos que os há.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

A Letra, o Espírito, a Letra


É certo e sabido que é na intervenção ao nível do imaginário que se concentra um poder quase incontrolável.

Analiso o primeiro plano.
Analiso os elementos da imagem.
Questiono a sugestão da imagem.

- Diabo ao telefone…!

A emergência de sentidos múltiplos.

Como não perceber, pois, este discurso como um discurso de sedução?

- A tentação do pecado!

Ou será que estamos perante:

- Irreverente, quem? Eu?

Um discurso que se desmultiplica sempre para nos compreender melhor e assumir o nosso ponto de vista.

Ainda meio indeciso se hei-de ou não enviar esta imagem para a PT Comunicações, quem sabe, servindo para uma qualquer campanha publicitária…. convido a entrar neste “paraíso” imaginário, pois:

- A solução está na sua mão….!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

...suspiros...!

Até tenho coisas para contar mas...
Ai que prazer

Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.

hummm...!

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Entre a sombra e o sonho


Fecha-se um ciclo, que se renova em si, com mais força e intensidade e, tendo-a encontrado, prossegue um rastro cheio de aromas de um certo romantismo oitocentista.


Às vezes pergunto se
Às vezes pergunto quem
(...)
Com quem nunca mais vem
Tão longe de mim tão perto
Ninguém assim por ninguém
Manuel Alegre


Posfácio. Sê tão feliz como se eu estivesse contigo (Não penses que não estou agora junto a ti). Walt Whitman

domingo, 2 de dezembro de 2007

Os meus demónios


Todos os seres têm os seus demónios.
São entidades espirituais ao mesmo tempo inferiores e superiores a nós, a quem obedecemos sem saber.

Assumo-os de forma consciente.

Difícil paradoxo: posso ser ouvido por todos, mas só posso ser escutado pelos sujeitos que têm exactamente e presentemente a mesma linguagem que eu.

A espera é um encantamento. Intervalos de espaço, intervalos de tempo, fusão dos instantes.

Neste palco imaterial abdica-se da sua materialização para somente poder ser absorvido pela sensação – investe-se numa relação cúmplice, num leitor activo de mensagens – numa relação interpessoal (ais) electrónica global.

Toda esta conversa acerca de “relações virtuais” não passa disso mesmo, de conversa.

Mas, quando a “imagem” na comunicação electrónica nos é mais familiar (e, porque não assumir, por vezes muito ansiosamente desejada) do que a da “vizinha” que mora ao lado, é porque qualquer coisa mudou na nossa vida corrente, mesmo se nenhuma evolui para um esclarecimento ou uma transformação.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Lentamente…

A palavra é um som interior.

Este som corresponde parcialmente (e talvez principalmente), ao objecto que serve para designar.


Quando não se vê o objecto, mas apenas o seu nome, forma-se no cérebro do auditor uma representação abstracta, o objecto desmaterializado, que imediatamente desperta uma “vibração” no coração.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

E...


(…)

Era uma vez um homem que pretendia calcular tudo.

Prazeres, dores, virtudes, vícios, verdades, erros: para cada aspecto do sentir e do agir humanos este homem estava convencido de que podia estabelecer uma fórmula algébrica e um sistema de quantificação numérica. Combatia a desordem da existência e a indeterminação do pensamento com a arma da «exactidão geométrica», ou seja, de um estilo intelectual todo contraposições claras e consequências lógicas irrefutáveis.

O desejo do prazer e o temor da força eram para ele as únicas certezas das quais se pode partir para penetrar no conhecimento do mundo humano: só por esta via podia chegar a estabelecer que até valores como a justiça e a abnegação tinham qualquer fundamento. (…)


Porquê ler os clássicos? Italo Calvino.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A vida por um olhar



¨tu não deves…¨tu não deves o quê? ¨TU NÃO DEVES SONHAR TANTO! ¨porquê? ¨só traz desassossego ¨e então? ¨Então ficas a sofrer por isso…

A necessidade poética de SONHAR



Vinde à terra do vinho, deuses novos!
Vinde, porque é de mosto
O sorriso dos deuses e dos povos
Quando a verdade lhes deslumbra o rosto.

Houve Olimpos onde houve mar e montes.
Onde a flor da madrugada deu perfume.
Onde a concha da mão tirou das fontes
Uma frescura que sabia a lume.

Vinde, amados senhores da juventude!
Tendes aqui o louro da virtude,
A oliveira da paz e o lírio agreste...

E carvalhos, e velhos castanheiros,
A cuja sombra um dormitar celeste
Pode tornar os sonhos verdadeiros.

Mensagem,
Miguel Torga


Acredito no sentido instintivo!

O tempo que vivo, onde há “personagens” difusas - seres humanos que a enriquecem, produz no meu “tempo interior” as fraquezas de uma inquietação.

Será a mão que dita esta caligrafia inquietante, uma mão tímida?

Tempos e patrimónios novos




“Alminhas” das estradas e caminhos – um ponto de vista

“Ó vós que ides passando,
lembrai-vos de nós,
que estamos penando”

Os nichos das alminhas, dispersos por caminhos, constituem uma curiosa apresentação da nossa etnografia.
Documentos ingénuos de arte popular, registos de vida e costumes também da sociedade trasmontana - com um valor histórico e ao mesmo tempo cultural, estes valem sobretudo, para além da nota religiosa, pelo cunho artístico - popular que apresentam, com os seus erros de desenho, “ingenuidades iconográficas” e policromia viva das tintas.
Com o decorrer dos anos as “substituições” assumem a forma de nichos de pedra ou painéis de azulejos.


Deste modo, pelos materiais utilizados, podem-se distinguir “intervenções” de diversas épocas.
Notas típicas da paisagem e da arte portuguesa, elas merecem bem o interesse do nosso olhar.

Todavia, e temos de afirmá-lo, como está algum do nosso património…?

É comum dizer-se que uma imagem vale por mil palavras…contudo, talvez nem com mil imagens seja possível desenvolver o que dizem estas oito palavras:
- Abandono!

Eu não estou minimamente dentro do assunto, por isso desconheço em absoluto o fundamento (ou ausência dele) mas posso dizer uma coisa que para mim parece o mais gritante dos óbvios:
- A resposta ao objectivamente visível, encontra-se perdida, algures… no limbo do anonimato das cidades modernas onde tudo se torna transitório.

Assim sendo, fica sempre a esperança!

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

O mundo é de quem não sente.


A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade.

A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade.

Ora há duas coisas que estorvam a acção - a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade.

Toda a acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alhieo, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.


Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza pára.
O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte - ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.

Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'


Diversos entre diversos ou a música do silêncio?


A tranquilidade e o sossego, meus inseparáveis companheiros, ajudam-me a estabelecer monólogos de alma.
O que sucede então é muitas coisas ao mesmo tempo. Impõe-se um silêncio.
O ar frio da manhã, o azul do céu, matizes ocres da vegetação…infinidades de sugestões cromáticas…
…essa luz, esse raios brancos que observam… imagens também feitas de linhas que obedecem à luz e a ritmos.

Recolho o olhar.
Sejamos exactos.
Onde é que o espírito é mais puro? No principio.

É a questão do tempo. As coisas vão mudando

Vindo de um fundo quase indistinto, a silhueta do olhar de uma pastora de negro vestida. No mirar melancólico, vi no instante, um povo feito de pedra com coração.


Ps. Cansado da cidade, do ritmo da “vida social” definido pelo “tempo de trabalho”, domingo resolvi fazer “gazeta” aos trabalhos académicos e aceitar um convite para um passeio micológico – um merecido descanso em “cenário natural”.
“Recolha” de cogumelos? A escassez de pluviosidade também aqui fez das suas...!

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Não tiro os olhos das tuas mãos…quem são elas?


...deparei recentemente com um post que me soube a uma piscadela de olho!

Por trás dos olhos fechados a paisagem não se faz.
Há uma vontade de êxtase.

Vi-me como os outros me vêm?


O sentido é por vezes difícil de atingir!
Toda a minha vida tem sido querer adaptar-me.
Vendo-me de fora, porque eu não sou só um sonhador, compreendi que era impossível.

O problema não deve estar no guião
Eu é que não sei representar.

…a Divina Inveja?

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Confissão


E fui andando sem pensar em mudar
E sem ligar pro que me aconteceu
Um belo dia vou lhe telefonar
Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu
No ar que eu respiro
Eu sinto prazer
De ser quem eu sou
De estar onde estou

Agora só falta você
Agora só falta você

Maria Rita

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

O chão e o verbo


Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso.

Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo.

O que é preciso, para se os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite.

Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe, como é dos mais belos que se possam imaginar.

Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crosta do sonho, contempla a própria bem-aventurança.
Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum deus criador e dominador. Tudo parado e mudo.
Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:
- Para cã do Marão, mandam os que cá estão!
Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro.
Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?
Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nome invisível ordena:
- Entre!
A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.


Miguel Torga. Portugal (Coimbra, 1950)

Ps. Confesso, embora seja suspeito, provavelmente dos melhores textos escritos sobre Trás-os- Montes!

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Aqui e Além


O proprietário ausente é a maior “maldição” da paisagem rural. O antigo proprietário, o homem que a criou, foi extinto à força de “factores externos” em que várias linhas de força operaram simultaneamente, e os novos proprietários habitam na cidade ou nos seus arredores.
Aceitamo-la como um dado!
Consequentemente, o sentido da própria responsabilidade, que nasce do conhecimento e do amor a uma determinada parcela rústica, não está presente.
E a ideia perdeu-se. Muito frequentemente perdida para sempre…!

Felizmente o espaço rural não foi inteiramente abandonado. Ainda sobrevivem aquelas aldeias que estudam humildemente o seu de campo e que se demarcam do panorama geral da decadência, desarrumação e descuido.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Um bom acto de justiça.


Sentença anunciada contra o padre Fernando da Costa, Prior de Trancoso, datado do ano de 1478, a qual consta do processo arquivado na Torre do Tombo, Armári 5º. Maço 7º.


“Padre Fernando da Costa, Prior que foi de Trancoso, da idade de 62 anos será degredado das suas Ordens e arrastado pelas ruas públicas ao rabo de cavalos, esquartejado o seu corpo é posto aos quartos, cabeça e mão em diferentes Distritos. Pelo crime que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com 28 afilhadas tendo delas 117 filhas e 27 filhos, de 5 irmãs teve 30 filhas e 6 filhos, de 7 amas teve 39 filhas e6 filhos, de 2 criadas teve 38 filhas e 7 filhos, dormiu com uma tia chamada Ana da Cunha que teve 3 filhas e da própria mãe 2 filhos – total 275 filhas e 75 filhos todos concebidos de 54 mulheres. El Rei D. João II perdoou ao fecundo sotaina e mandou pôr em liberdade aos 17 dias do mês de Março de 1487 e guardou no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença devassa e papeis do processo.”

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Introdução


Quanta arte não é precisa para penetrar na Natureza.
Quanto tempo e quantas regras não despendemos para
dançar com a mesma liberdade e graça com que andamos,
e para cantar como falamos,
e falar e expressarmo-nos como pensamos.

Montaigne

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Exílio


São vários os modos de exílio:

a) o exílio amoroso
b) o exílio para o espaço interior
c) o exílio para um espaço de pura exterioridade
d) o exílio como agenciamento de um olhar de fora para dentro.
nota: ultimamente "estou" em todas as alíneas....!

terça-feira, 23 de outubro de 2007

O império da imagem – ou uma proposta de investigação


A meio caminho entre uma problemática estética e uma problemática ideológica tenho andado de braço dado com um fenómeno curioso e apaixonante da “indústria cultural” - a Arte Pública.

Procuro a noção:

monumento, s.m. construção ou obra de escultura destinada a perpetuar a memória de um facto ou de alguma personagem notável.

Mas não é o conceito de monumento que pretendo destacar.

Se no passado a presença de uma escultura era justificada pela celebração de um acontecimento ou pelo laudatório de uma figura ilustre, o que significa hoje a “necessidade” dos projectos de “arte pública”?

Assim, este é um problema que diz respeito a um discurso sobre arte e sobre a função da arte no mundo contemporâneo? Ou será que as cidades/autarcas reclamam para si estes referenciais de modernidade?
Mas afinal quem se pretende que passe à categoria de ilustre – o autor ou quem a “encomendou”?

Não é uma tarefa fácil; nem é fácil estabelecer exactamente o campo de interesses.
Nesse sentido teria podido tornar-se o ponto de referência de uma série de projecções.

Vou-me ficando por aqui…
Rendo-me à evidência:
- Andy Warholl deu voz à era da imagem, com os seus “quinze minutos de fama”…!

Nota: E neste jogo(s) de poder(es) aonde se “encaixa” a mais velha arte do mundo?
Convém não esquecer que desde que a humanidade descobriu a expressão gráfica, tem havido escrita nas paredes…!


quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Da razão


Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
- Mas qual é a pedra que sustém a ponte? - pergunta Kublai Kan.
- A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra - responde Marco, - mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta: - Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: - Sem pedras não há arco.

Ítalo Calvino – As Cidades Invisíveis


Silêncio.


As palavras inscrevem-se em silêncio no espaço deixado vazio.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

A oscilação entre dois olhares…


Dando expressão à larga escala de interpretações entre o conteúdo simbólico e a composição formal, a riqueza de um elemento, a superfície da “obra” , uma mensagem icónica codificada pode ser vista independentemente e permite uma interpretação livre, sem adulterar os contornos da realidade.

O carácter expressionista da representação de uma corporalidade real, torna-se particularmente nítido.

Aqui não é possível invalidar a censura à satisfação do “voyeurismo” evidente.
Talvez seja isto verdadeiramente a abstracção.
Tudo significa e contudo tudo é surpreendente.…!

Numa mesma imagem retomemos uma vez mais o processo do sentido – um outro simbolismo:

Do que a vida é capaz!
A força dum alento verdadeiro!
O que um dedal de seiva faz
A rasgar o seu negro cativeiro!

Ser!
Parece uma renúncia que ali vai,
- E é um carvalho a nascer
Da bolota que cai?

Miguel Torga, Diário

sábado, 6 de outubro de 2007

A escrita do visível


A escrita do visível ou a conotação, isto é, a imposição de um segundo sentido à mensagem fotográfica.

A palavra ou a língua, escrita ou falada, parece não ter nenhuma importância no mecanismo do meu raciocínio. Não há nada mais evidente do que a seguinte passagem de Albert Einstein que li em algures: Os elementos psíquicos básicos do pensamento são sinais determinados a figuras mais ou menos claras, que podem ser reproduzidos ou combinados “à vontade”.

Qual é pois o conteúdo da mensagem fotográfica? O sentido óbvio, a representação de uma forma está mais ligada à pura imaginação do que à observação.
Ao nível da mensagem simbólica, o poder projectivo da imagem, aponta para um significado possível.
Tantas vezes “rabiscado” em “estados” de paixão, ilustrado por graffitis, gravado em bancos de jardins e troncos de árvores, procurando perpetuar sentimentos lá vai proliferando como expressão máxima de paixão.

Admito que este signo romântico produz um mal-estar de execução.
Mas ilustrar um sentimento tão intenso como seja o amor, com a colocação do mecanismo neural, núcleos subcorticais e o córtex cerebral ou os sinais neurais das vísceras, dos músculos e articulações e dos núcleos neuro-transmissores devidamente identificado tiraria metade do êxtase do momento, do sentimento.

Claro que haveria sempre uma certa forma de dar a volta ao texto, socorrendo da estilização - convenhamos que a comparação entre a verdadeira aparência do órgão e a forma do coração, também aqui não existe nenhuma relação…

Eis-no imediatamente no cerne do problema. Como é que o sentido vem à imagem?

Assim, a consciência de que não existem elementos casuais ao nosso redor ou dentro de nós, mas de que toda a matéria (inclusive a mental) obedece a uma composição ordenada, leva a pensar que até o traço ou o rabisco mais inocente não pode existir acidentalmente, por puro acaso, mesmo que o observador não reconheça claramente as causas. A origem e o motivo desse “desenho”.

Este desenvolvimento complica-se…!

Retomemos uma vez mais o processo do sentido.
Embalando o escrever destes apontamentos de campo, mesmo correndo o risco de ser apontado como um voyer naturalista…. a voz sensual de Ingrid Bergman (no cd do filme Casablanca (original motion Picture soundtrack)).

A comunicação que é implicada por esta segunda escuta é religiosa:

Play it Sam..Play “as Time Goes By

You must remember this

A kiss is just a kiss

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A casa e a árvore ou uma casa com uma árvore no meio…?


Confesso que inicialmente fiquei atónito, sem perceber muito bem o que estava a ver.
Ilusão de óptica?
Já às voltas com o problema especulei se teria sido um erro de arquitectura ou um amor extremado por uma árvore.
Conhecedor do termo – de casa e pucarinho (na maior intimidade) procurei encontrar, um outro, que se ajustasse a esta imagem.
Confesso que foi trabalho inglório….!
Vencido mas não convencido e consultando o livro - Arquitectura Tradicional Portuguesa, Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, lá encontrei o que procurava:

(…) a casa popular, e sobretudo a casa rural, é mesmo concebida não apenas como abrigo, mas sobretudo como um verdadeiro instrumento agrícola que é preciso adaptar às necessidades de exploração da terra, designadamente no que se refere ao seu dimensionamento e à importância e distribuição relativa dos alojamentos das pessoas, dos estábulos e das lojas de arrumação das alfaias e ferramentas da lavoura. Dentro desta orientação (…) define as habitações rurais não segundo os materiais de que são construídos, nem as suas formas exteriores, mas segundo o seu plano interior, sobretudo de acordo com as relações que nelas se verificam entre os homens, o gado e as coisas, ou seja: segundo a sua função agrícola, expressão do ambiente natural.


ps. para os mais incrédulos, aconselho um passeio até à Aldeia de França.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Sem título


Quando contemplamos qualquer coisa sob o ponto de vista estético desejamos que as forças opostas da realidade cheguem a um qualquer equilíbrio, que se faça um armistício entre o alto e o baixo. Contra este desejo de uma forma permanente, porém, rebela-se o processo moral da alma, com o seu incessante subir e baixar, com o constante prolongar dos seus limites, com a inesgotabilidade das forças contrárias que se movem no seu seio.
Jorge Simmel, Cultura femenina y outros ensayos


Da minha janela, a rede de artérias, vista do alto é uma malha intrincada de avenidas, ruas, ruelas, travessas, calejos, praças e jardins. Deve ser igual a muitas outras.

Mas os encantamentos são, muito breves, porque as pessoas tiram-lhes o encanto com ideias.


Os nomes das ruas da minha cidade são tristes:
Rua da Tristeza
Beco da Amargura
Avenida do Descontentamento
Caleja da Angústia
Escadinhas do Desgosto
Jardim da Melancolia
Travessa da Desolação

Também não consigo parar o pensamento. Por isso escrevo. Sobre o ver e o não ver, penso sempre.
Pensei guardá-los para sempre mas não consigo. Mas é por mim que escrevo.

À imagem de um mundo (o meu mundo), feito de informação, une-se a necessidade de convergir para um sentido, é manter-me no mundo sem perder a noção do meu ritmo orgânico essencial: é uma condição de sobrevivência.
A compreensão de um futuro próximo

Mas escrevo para lembrar a queda de um encantamento. Já não há uma estrela cadente com um nome, só há a estrela que tenho de seguir.

Começo a imaginar coisas e a criar estratégias de procedimento – tenho esboçado em desenhos tão finos, invólucros ilusórios: o nada!
Só!

À noite as ruas são negras: sob o candeeiro diviso o vulto que persigo.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

e porque amanhã é outono...


Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.


Miguel Torga, Antologia Poética

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

The movie





1. Elas. Belas e apetecidas…!
2. Eles. Bramando…!!! Numa clara manifestação de virilidade.
3. Outros. A timidez? A desistência? Ou esperando por melhores dias..!!!

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Questões pertinentes em dois actos e um epílogo


1.º acto

A primeira coisa que é necessária para haver "evolução" é a insatisfação ou a constatação de que algo está mal ou poderia ser melhor.

Muita da minha escrita tem sido um colocar de peças do jogo de xadrez no tabuleiro, tendo do outro lado, como adversário, o mistério da vida.

Recuo diversas vezes nos meus raciocínios, procurando os erros e invariavelmente vou “jurando” (muitas manifestadas em forma escrita) que não volto a "errar".

2.º acto

Para mim normalmente as palavras acabam por ter uma importância relativa: valorizo muito um frente-a-frente, o gesto corporal, o facial, etc.!
Se as palavras valem por si mesmas, porque será que ultimamente tenho tanto prazer em ler o que escreve uma “anónima” identificada?!

epílogo

- Porque recebemos as mensagens certas das pessoas erradas?

conclusão
Maldita distância geográfica!

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O meu comedouro para pássaros é um sério caso de sucesso…


Na tentativa de compreender o comportamento animal, as suas especificidades, somos frequentemente tentados a compara-lo com o comportamento humano, criando paralelismos, ou distinções, no intuito de o melhor apreendermos. Por vezes, fala-se de um punhado de emoções nucleares: medo, ira, tristeza e prazer; a que outros acrescentam: amor e vergonha.

Curiosamente já pude observar este poder das emoções…nos frequentadores do meu comedouro!

A que partilho, fascinou-me!

Estaremos perante a selecção natural, que leva inevitavelmente à sobrevivência do "mais apto", ou à exteriorização do lado mais "cru" (agressivo, ou mesmo violento) num sério caso de ataque de “raiva”…!

Ser ou não ser (gato(a)) eis a questão


Amiúdes vezes, expressando um prazer de satisfação alguns raiando a cobiça, ouço o comentário:

- que gato (a)….!!!

Confesso que tal apodo sempre me intrigou.
4 patas, muito pelo, longos bigodes… morfologicamente, anatomicamente, etc. , não encontro muitas semelhanças para com o ser “apreciado/invejado/desejado”….

Analiso o que sobre ele diz a Vox Populi:

Gato escaldado, de água fria tem medo.
De noite todos os gatos são pardos.
Gato escondido com rabo de fora.
A curiosidade matou o gato.
Quando está fora o gato folga o rato.
Gato miador, não é bom caçador.
Um olho no prato, outro no gato.
Quem não tem gato…caça com cão.
Impingir gato por lebre.
Dar-se como o cão e o gato
.

Sem conseguir encontrar uma explicação plausível, e cada vez mais intrigado, de dúvida em dúvida, procuro ir ao âmago da questão.


Socorro-me do seu significado:

s.m. Mamífero carnívoro, da Famílias dos Félidas, existente no estado selvagem, mesmo em Portugal, mas representado em quase todo o Globo por espécies e muitas raças domesticadas e úteis.

Ah...! Será que é aqui que está o busílis da questão…?!
ps.reli o que escrevi. é por estas e por outras.. que continuo solteiro e só...!

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

# 2


Bem sei que tenho andado mórbido….mas esta abordagem a uma estela funerária não é a continuação dessa morbidez mas uma abordagem plástica a uma existente no Museu do Abade de Baçal.

# 1


E eis que finalmente a minha série de recolha de “fachadas de casas rurais” vê a luz do dia.
“Viajei”, desenhei, “esculpi”, patinei….
E agora, como sempre, o que faço com elas?

Hoje é outro dia (ou uma introspecção em três andamentos)


1.º andamento

“Que Gigantes” disse Sancho Pança. “Aqueles que ali vês”, respondeu o seu amo. “de longos braços, que alguns chegam a tê-los de quase duas léguas”.


D. Quixote, Cervantes

2.º andamento

O Labirinto permite ao acesso a um centro por uma espécie de viagem iniciática. (…) Conduz também ao interior de si próprio, de um santuário pessoal, escondido onde reside o segredo da pessoa humana, onde se encontra a unidade perdida do ser, que se dispersou na multitude dos desejos.

3.º andamento

Analisemos a questão:
- Andarei a combater moinhos de vento?

As variantes de posição encarregam-se da situação. Para reencontrar o tempo e o seu drama é necessário abandonar o patético e abordar a retórica: falar de um longo passeio ao fim da tarde, no campo, durante um week-end de Outono.

Cansei-me de Seduzir a palavra, de apalpar o Silêncio!

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

O facto sem a vontade de o exprimir




Quanto mais profundamente mergulho em mim, mais profundamente compreendo a absoluta solidão do acto de criar.
Quando me entrego muito intensamente a esse acto de vida, essa grande paixão que me impulsiona a viver, após o esgotamento sensível provocado por um mundo de aço e “dinamite”. Penso se os outros sentiriam o mesmo
Queria pousar a cabeça no coração de alguém e adormecer sobre essa almofada palpipante.
Os encantamentos são, muito breves, porque as pessoas tiram-lhes o encanto com ideias.
O céu sobre mim é, portanto, a única coisa clara, transparente e compreensível.
Que estranha é a ideia de pensar que o meu tempo é solitário.

Mas eu, alheio sempre, sempre entrando
O mais íntimo ser da minha vida
Vou dentro em mim a sombra procurando


Fernando Pessoa

É esta a última e mais tremenda das tentações: querer partilhar os meus sentimentos.

Olho à volta, na floresta. Reparo num esquilo….!

E o meu coração continua cheio de ervas daninhas!

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Flores voadoras ou Jóias verdadeiras?




Cada vez mais procuro o refúgio na solidão dos meus passeios muito matinais.
Ela, a natureza, dá-nos uma infinidade de sugestões.
Cores dos sonhos?
Primeira lição, versão ao vivo:
O reino animal, o mundo das plantas, a mineralogia, a composição a que se chama paisagem, tudo isto dá motivos para pensar e ser grato a cada instante.
Há, porém uma que está acima de todas estas realidades cromáticas – borboletas. Obra da natureza tão extraordinária e com tão invulgar jogos de cores, modelos de desenhos compostos por padrões altamente elaborados e fascinantes - flores voadoras ou jóias voadoras?

Ps. Confesso que sou suspeito – é lá que me sinto bem. Basta fechar os olhos, sentir… não há doutrinas nem heresias, apenas a forma criadora.

Ps2. tudo isto está muito bem e, contudo, falta-me qualquer “coisa”!


ps3. e como dizia o chico buarque: o que será que será...

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Que resposta dar?


Pergunta

Rósea flor de pessegueiro
Delicada, como a alma
que nasce e cresce na calma
da terra fria do Norte
rósea flor, a tua sorte
quereria este arteiro
coração, que bem te quer...
róse flor, serás mulher
nesse ar tão doce e fagueiro?!...


Maria Mamede




Ps. O seu poema é tão belo que não resisti a partilhá-lo. Obrigado MM.

A passagem do tempo


Em busca permanente. Será verdade?

O ser humano disseca a coisa e revela o seu interior.

Os caminhos, muitas vezes, parecem novos, talvez sem, no fundo, o serem.
Isto corresponde à interiorização visível.

Afinal, tudo é passageiro, e o que ficou de tempos antigos, o que fica da vida é o espiritual.

E apesar disso!....Temos de nos sentir interiormente satisfeitos.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Emoções feitas de imagens, letras, pontos e muitas cores!


Pardais

Sigo o vôo dos pardais
e perco-me no seu saltitar frenético
a dizer das larvas e dos mosquitos;
voam como caminham....
apanham migalhitas em vôo picado
e são felizes!
Depois, namoram nos ramos
freneticamente
e partem e regressam
e brincam ao "pilha" da minha infância
quando o dia está no fim
e numa chilreada tonta
ensurdecedora
despedem-se do sol;
e sempre que a manhã desponta
são os primeiros
a dizer-lhe bom dia!...



Maria Mamede
ps. obrigado Maria Mamede pela sensibilidade.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

De olho nos pardais


Como isto das reencarnações tem muito que se lhe diga… resolvi construir e colocar num canto do terraço um comedouro para aves!
Assim, começo as minhas manhas espraiando o olhar na voluptuosidade de recortes da serra de Montesinho, com a mais valia, de ao longo do ano, as suas alterações cromáticas fazerem jus ao epíteto de - aguarela gigante. De beleza em beleza, os rituais, as cortesias, os bailados dos pardais em volta do comedouro, que salpicam de cor e movimento as minhas madrugadas, acabaram por me trazer uma outra forma de fascinação para com a natureza e o seu mundo tão perfeito:
Na Natureza, o Criador colocou plantas e animais num equilíbrio perfeito, e o homem, para que desfrute do todo.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

# pressões, projectos, preguiças e Cª Ldª...!


Grandes pressões profissionais têm originado que invariavelmente procure o refúgio do sofá para “encontro” de fim de dia…. momentos de ócio!!??
Se por um lado, é o que me apetece fazer, por outro, sinto-me frustrado duas vezes:
Por sair esgotado demais do que o devia, sem vontade para mais…e por aceitar que assim seja, descurando todos os projectos pessoais (o sal da vida).
Claro que quando se “arrumam gavetas” e vêm ao de cima projectos, esquiços e esboços, aí a dor é maior !!!
Estou tramado…, e ainda por cima não jogo em jogos de sorte (ou azar) e como um mal nunca vem só, sou novo demais para a reforma!!!
Enquanto isso refugio-me em pensamentos:

Sísifo

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordando,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez te reconheças.

Miguel Torga, DIÁRIO XIII

As imagens e as coisas


abcdefghijklmnoprstuvxyz




[CMondim, de romance em romance (no ar…), talvez fosse este o alfabeto de um apaixonado?!

Este fim-de-semana lá terei que ir à procura da “imagem” que ilustre a cor da paixão…! Alguma sugestão?!]

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Um sonho perceptivo acordado.


O visível e as suas manifestações, por um lado, e o invisível e o pensamento, por outro.

Superar uma crise significa fazer uma travessia difícil?


A vida é um processo contínuo de adaptação a novas situações, imprevisto e imprevisíveis. Há períodos na nossa vida em que perdemos a segurança habitual. Sentimo-nos perdidos, desorientados. Perdemos a nossa identidade e temos de a reconquistar.
Para sobreviver temos de ser capazes de nos aventurarmos por caminhos desconhecidos. Somos obrigados a mudar, a projectar de novo o que fazemos e o que somos.
Por isso e para atingirmos isso, o momento mais verdadeiro é, paradoxalmente, a solidão

[Anda romance no ar…?]

E a mim quem me liga…..?!

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O pensamento tornado visível


Uma cena nocturna sobre um céu diurno. O campanário da igreja leva-nos a pensar na noite, o céu no dia. Na minha opinião, esta simultaneidade de dia e de noite tem o poder de surpreender e encantar.
Poder-se-á chamar a isso poesia?



[carta]

Vendo-te recordei que guardo intacto o coração dado a mais paixões. A minha mania de criar o mundo em falso acompanha-me ainda. E se alguém disser que isso é falso e absurdo não vou acreditar. Confesso, sou sujeito a paixões visuais.

E eu porque vos conto isto?

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Percebe, está a perceber?


A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E em cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo.
Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos, sonhando, intacto eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver.

Livro do Desassossego
Vol. I. Fernando Pessoa.


São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Vejo-me no meio de um deserto imenso. Digo do que ontem literalmente fui, procuro explicar a mim próprio como aqui cheguei.