quinta-feira, 14 de junho de 2012

Utilizando a memória coletiva como motores de reflexão – a possibilidade de ver!


Utilizando a memória coletiva como motores de reflexão – a possibilidade de ver!

Esta imagem tratada, manipulada e isolada poderia ser um qualquer exterminador, um  elemento de guerra biológica, etc., etc..
Cingindo-a ao real local e no seu espaço físico (museu do ferro.moncorvo) ela passa  a ser enquadrada num contexto mais vasto e dinâmico.
Onde as noções de “envolvimento”, “espaço”, “meio”,” quadro de vida”, tornam esta terminologia mais englobante e fluída:
Com efeito, reconhece-se aos museus a capacidade de contar uma história e de constituir uma memória, o que significa atribuir-lhe uma equivalência aos documentos escritos.
Ps.gosto destas instituições de memória, depositárias de cultura que testemunhando um momento, um acontecimento, o tempo e o espaço, numa recriação constante da memória coletiva, operando uma redefinição permanente do legado da cultura.

sábado, 14 de abril de 2012

Rio de Onor



[Este hé o lugar de Rio d´Enor.1.Fica este lugar na Província de Trás os Montes, no Bispado de Miranda, Comarca e termo da cidade de Bragança, freguesia de S. João Baptista e anexa esta igreja à de Rabal. 2. Hé este lugar pertencente à Serenissima Caza de Bragança à qual se paga todos os annos cento e trinta e sinco alqueires e quarta meia de trigo e a cada alqueire de trigo hua quarta de centeio e... sinco arráteis de cera e dois carneiros e vinte duas galinhas e se paga este trigo sem se colher nenhum grão neste lugar. 3. Tem este lugar vinte e seis vizinhos e pessoas noventa e nove. 4. Está este lugar no meio de hum monte em hum vale do qual se descubre hum lugar de castella, chamado Rio d´Enor (sic) e do termo se descobre o lugar de Deilam, a cidade de Bragança e o lugar de Santa Cruz o qual hé de Castella e o lugar de Goadramil que hé de Portugal. O qual lugar de Rio de Cima dista deste lugar de Rio d´Enor (sic) de Portugal couza de hum tiro de bala e o lugar de Deilão dista deste lugar de Rio d´Enor (sic) duas legoas e a cidade de Bragança três legoas e meia e o lugar de Santa Cruz dista deste lugar três quartos de legoa].
José Viriato Capela, Rogério Borralheiro, Henrique Matos e Carlos Prada de Oliveira, Memórias Paroquiais de 1758.


[…uma das constantes fundamentais desta cultura é o seu respeito pela organização social, até hoje orientada pela vida em comunidade. Outra constante relacionada com a primeira, é o espírito de fraternidade e tolerância que leva os aldeões a viverem sem fricções e em perfeita harmonia com os vizinhos. Tudo é feito numa atmosfera de celebração, sem acrimónias ou inimizades… Esta maneira de viver reflecte-se na educação. As crianças crescem em liberdade, participam nas festas, dançam e cantam com os adultos… uma geração segue a outra, igualmente harmoniosa, feliz e equilibrada.]
Jorge Dias, Rio de Onor, Comunitarismo Agro-pastoril.

O rural contemporâneo e a formatação de estilos de vida:
- Estaremos presentemente para lá de uma globalização produtora de genéricos hegemónicos?!

http://www.gigapan.com/gigapans/102930


segunda-feira, 9 de abril de 2012

in...Imaginários sublimes!


[…aos olhos cansados da cidade, que algum dia puderam espraiar-se retouçando, na verdura dos matos e dos lameiros ou na aspereza violeta e cinzenta das montanhas, causa uma deliciosa sensação de repouso, o encontro de perdidas, pequeninas coisas que os fixem e prendam por instantes em meios da grandiosidade ou gracilidade dos quadros naturais.

Não têm conto sobre a fisionomia da Terra, esses sinais que desenfastiam e fazem descansar o olhar. Facilmente os encontramos nas povoações. Uma janela entre cachorros floridos, um portal brasonado, uma chaminé que a luz atravessa estranhamente recortada, uma faxa de esgrafitos, um nicho devoto, desmonotonisam a frontaria de um edifício, enchem de vida os muros caiados.

Nos campos, uma fonte, uma nora, um baldão, uma cabana de pastor, de colmo ou pedra vâ, um cruzeiro, uma capela de almas, servem para marcar no rosto fresco da paisagem esse qualquer coisa de humano que os nossos sentidos civilizados sobretudo apreciam. ]
Vergilio Correia, 1916, in João Leal, “Metamorfoses da Arte Popular”

terça-feira, 4 de outubro de 2011

(…) O que há de especial neste retrato?



(…)
O que há de especial neste retrato?
Aparentemente, não há nada. Não há nada que se apresente para ilustrar o segredo. E, mesmo que o quiséssemos ilustrar o segredo, nada poderíamos fazer porque o segredo nunca se apresenta. Mas há alguma coisa neste retrato: há um olho (que não se move) que olha através da câmara. Sobre o que está a ver esse olho não sabemos nada. Ignoramos em absoluto o “motivo” que está a fotografar. Entre nós que olhamos o retrato e o motivo retratado não há nada. A única coisa que há é a força incrível do aparelho sobre o tripé e o olho (que não vemos) espreitando por detrás das lentes.
O que há no retrato? Não há nada, ou quase nada. E, no entanto, há segredo.


Há as mãos do fotógrafo: rodando a angular, afinando a focagem, focando o motivo, estabilizando o motivo sobre a superfície especular. As coisas estão sempre a fugir: há que persegui-las no instante do seu acontecer. Persegui-las com meios técnicos, como se persegue uma presa. É preciso dominar, domar, o motivo, enquadrá-lo, surpreendê-lo, aprisioná-lo dentro da máquina como se esta fosse uma jaula. O olhar astuto do fotógrafo é o olhar do predador que joga com a sua presa: jogam os dois uma cena de perseguição e fuga. É necessário domesticar a luz, escolher o momento do corte, o momento em que o botão da máquina dispara sobre a luz. O fotógrafo é um caçador da luz que, às vezes, atinge o seu alvo.
Há a inclinação do corpo, ajustando-se à máquina. O corpo do fotógrafo deve contorcer-se para abraçar a máquina. Uma posição, pois, determinada pela máquina. Há o apoio estável da câmara sobre os três pés do suporte, a segurança da sua posição erecta sobre o solo; e há o equilíbrio precário do fotógrafo, talvez apoiado numa só perna, a ponto de descentrar o centro de gravidade do seu corpo e cair. Há um corpo a corpo do homem com a máquina, um cruzamento da técnica com a intuição e a arte (técnica também) da fotografia.
Há o olho da máquina, a objectiva (o objecto na mão dominadora do sujeito), prolongação protésica do olho do fotógrafo. Olho único, monóculo. O olho direito está fechado, suspenso, porque dentro da lente só cabe um olho, um olho único. É uma imposição legal, aí onde impera a legalidade técnica: do aparelho e da perspectiva. (…) Há o punctum do encontro, o contacto (sem contacto) entre o olho e o objecto. Um ponto singular, circular (repare-se no círculo que traça o movimento das mãos sobre o círculo da teleobjectiva) que requisita o nosso olhar.
Há, finalmente, a solidão do fotógrafo. (…)
A única testemunha só revelará o seu testemunho mais tarde quando, no laboratório, pela acção do líquido revelador, a luz até aqui comprimida, negra, um buraco negro, se distende.
O que há aí no retrato? Há o que acabámos de anotar e tudo o mais que não compareceu na anotação, por perda ou desvio. Há tudo aquilo que outro observador poderia ter anotado. E outro. E outro. (…)
O que há no retrato? Não há nada, ou quase nada. E, no entanto, há segredo.

Álvaro Siza. Desenhar a hospitalidade. Nuno Higino

Ps.não sendo “fotógrafo”… não resisti … permanente procura da parte mais secreta das coisas da alma e da alma das coisas.

sábado, 18 de junho de 2011

Imóvel, sentado sobre o tempo




Discuti finalmente comigo, atentamente.
Agora que entrara nesse jogo de voltar atrás e olhar, verifico que afinal não podia recuperar nada do projecto de então: apenas ideias soltas, lançadas ao ar, ao sabor do acaso e do vento.
O silêncio pesando.
Tinha agora uma ideia clara de como organizar o projecto.
- Sair um momento daqui. Preciso de campo e de sol.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

De que cor será sentir?


«Lisboa, 14 de Março de 1916

Meu querido Sá-Carneiro:

Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.
Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.
As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.
Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.
De que cor será sentir?

Milhares de abraços do seu, sempre muito seu

Fernando Pessoa

P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características...
Você acha-me razão, não é verdade?»

Fernando Pessoa, Carta a Mário de Sá-Carneiro (1915)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

De trigonometria


Para lá dos limites dos significados, muitas vezes, quando olhamos uma fotografia, esquecemo-nos do “olhar silencioso”; dono imortal do Instante.

Uma outra linha de pensamento revela-nos que há outro sentido para a palavra – “o momento decisivo”.

Assim a questão colocada: qual é o valor de uma imagem?

Entre puristas e elites, admito que teria “fomentado” uma discussão interminável.
Para mim há uma contextualização ainda mais subjectiva, o valor é adquirido quando as imagens passam a viver por “elas próprias”, uma espécie de para lá do seu autor - antes existencial, como “parte de uma História”!

Ps. Dou por mim muitas vezes a pensar no desejo de poder captar um momento assim